Duarte Marques. “Tomar: voltar a ser especial”

Artigo de opinião de Duarte Marques

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Desde muito pequeno que me habituei a gostar de Tomar, recordo com particular saudade as constantes viagens que ali fazia a partir de Mação com os meus pais, ora às compras ora em simples passeios em família. Habituei-me a ouvir o meu pai falar da história de Tomar como uma das mais importantes cidades industriais do país. Mais tarde comecei a ir a Tomar com a minha mãe e aproveitar assistir aos treinos de um bom amigo que jogava hóquei na cidade, o Sérgio Silva, aí ganhei o bicho do hóquei e apesar de ser um benfiquista doente, passei a seguir com um carinho especial o Hóquei do Sporting Clube de Tomar. Ainda no tempo do secundário, e habituado a vencer todos os jogos de badminton em Mação, fui a Tomar levar uma verdadeira sova e um banho de humildade num torneio local. Ficou-me para a vida. Em Tomar leva-se o hóquei e o badmington (e também a música muito a sério). Impossível ignorar aqui que foi graças ao PSD e à JSD que melhor conheci Tomar, as suas gentes e a sua cultura e que graças a isso fiz muitos bons amigos.

Neste aniversário da cidade é impossível esquecer o simbolismo que marca qualquer pessoa que acarinhe o Nabão – que tem sido tão maltratado – a história dos Templários e  do Convento de Cristo – cuja “história” da inauguração do restauro da “charola” um dia irei contar em público -,sem esquecer o “meu protegido” Aqueduto de Pegões (provavelmente o monumento histórico mais esquecido deste país) ou o centro histórico da cidade que é provavelmente dos mais bonitos de Portugal.  Tomar é uma cidade da qual é fácil gostar, e por vezes gosta-se tanto que ficamos tristes e desiludidos com aquilo que Tomar já foi, com as suas empresas, referências e o impacto que teve no país e aquele que é hoje.

No ano passado tive privilégio de participar nas celebrações do dia da cidade, brilhantemente organizadas pela Câmara Municipal e fiquei fortemente marcado pelos testemunhos de duas pessoas que a cidade tanto acarinha e que eu não conhecia pessoalmente. Um deles, Ápio Sottomayor marcou-me pelo seu humor, generosidade, mas sobretudo pelo papel relevante e marcante que teve na imprensa local, mas também nacional. É uma figura singular da imprensa portuguesa e que eu desconhecia que era de Tomar e tanto amava e era amado pela sua cidade. Outro testemunho que me marcou foi o do Dr. Bento Mocho, advogado natural do meu concelho, Mação, mas que adotou e foi adotado pela cidade para desenvolver toda a sua vida. Um misto de humildade, generosidade e sentido de humor que aliou sempre a uma grande capacidade intelectual e de profissionalismo nas mais diversas responsabilidades que assumiu.

Estes dois símbolos fizeram-me recordar a grandeza que Tomar já teve. Esta que já foi uma das cidades mais importantes do país, tinha a massa crítica de uma cidade grande, com elevado nível intelectual, uma classe média forte, várias gerações de empresários e de empresas que marcavam o país como as fábricas Mendes Godinho ou a Companhia de Papel de Porto Cavaleiros, a fábrica de Papel da Matrena, a fábrica da Fiação ou a fábrica do Prado.  A força dessa indústria até desportivamente era refletida no desporto pois o União de Tomar foi nesse tempo um clube de primeira divisão onde até jogou o nosso Pantera Negra, o saudoso Eusébio.

Muito disso se terá perdido, como em tantas outras cidades do interior. A vinda do ensino politécnico para Tomar é um sinal claro dessa história e dessa cultura que os compete a todos aproveitar e tirar melhor partido. Mas o que mais noto é que o potencial continua por cá, as escolas secundárias têm imensa qualidade, as pessoas continuam a regressar e a viver em Tomar, há gerações mais jovens naturais desta cidade com qualidade e sucesso onde quer que chegam por esse país e mundo fora. O movimento associativo e cultural da cidade continua forte e o expoente máximo disso é o modelo e a tradição da Festa dos Tabuleiros que une todo o concelho e faz inveja a todo o país. Toda a cidade trabalha durante o ano para este evento que enche de orgulho qualquer tomarense.

Se Tomar pode ter sido prejudicada pela sua situação geográfica face a Lisboa, graças à evolução das infraestruturas e transportes, é cada vez mais fácil, possível e confortável viver ou trabalhar a partir de Tomar. Neste contexto de transição digital, este desígnio faz cada vez mais sentido e a presença da IBM na cidade é um excelente testemunho disso mesmo. Resta conseguir fazer melhor, criar condições para esse desenvolvimento e agregar esforços no sentido de tirar partido da sua posição geográfica, do tremendo potencial cultural e da capacidade e conhecimento das pessoas que nascem ou vêm para Tomar.

Tomar tem tudo para ser uma das cidades do interior com melhor qualidade de vida, resta aos poderes públicos ter a criatividade e ambição ao nível do passado desta cidade e conseguir agregar e contar com o papel das instituições privadas para voltar a dar a Tomar a importância que teve noutros tempos.

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