UE. O verão vai aquecer (Opinião)

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TomarTV

Flávio Nunes. “A União Europeia prepara-se para mais um verão quente que ameaça ser bem pior do que o do último ano.”

Que dias quentes, estes últimos! Depois de uma primavera demasiado tímida, chega este verão abrasador e soalheiro. Ao mesmo tempo, pela Europa, o clima é um pouco diferente. As agências dão conta de cheias em França e na Alemanha — e chuva, muita chuva na Inglaterra.

Temos sorte. Por cá, os dias estão quentes. Mas, mesmo com o mau tempo, podemos também dizer o mesmo sobre o resto da Europa — em sentido metafórico, claro. Após uma crise política exasperante vivida no último verão, com a subida dos gregos do Syriza ao poder e uma Grécia presa à União Europeia (UE) por um fio, essa mesma UE prepara-se para mais um verão quente que ameaça ser bem pior do que o do último ano.

Quem imaginava que, antes mesmo do Grexit, viria o Brexit? Quem pensava que, antes mesmo de Atenas ser afastada do clube dos 28, iria o Reino Unido optar por pôr fim a uma relação com mais de 40 anos (primeiro na CEE e, depois, como um dos Estados fundadores da UE que conhecemos hoje)? Eu não pensava, certamente.

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Estive em Londres duas semanas antes do referendo e questionei diretamente algumas pessoas: quais os sentimentos, as pretensões para este ato eleitoral tão raro naquele país. Uns falaram-me de que era o Reino Unido quem estava a suportar toda a UE (!!!). Outros demonstraram receio de que uma vitória do “Leave” pudesse abater-se sobre Inglaterra como que uma trovoada — e, aqui, falo de tudo à mistura; até da possibilidade de a Escócia pedir a independência.

Mas assumo-me esperançoso de que o processo não avance. Pelo menos nos moldes em que tem sido anunciado. A vontade democrática dos cidadãos britânicos deve ser respeitada, sim, mesmo que se trate de uma diferença de apenas 2% entre os que votaram “Leave” (Sair) e “Stay” (Ficar). Podíamos até seguir outro raciocínio e dizer que um referendo deste género nem sequer devia ter acontecido in the first place. Ou de que tem de haver um segundo referendo, pois a participação ficou abaixo dos 75%. Mas este já ninguém apaga. Aconteceu. E os britânicos já estão a sentir os efeitos da incerteza e da instabilidade — a caixa de pandora foi aberta.

Subscrevo quem defende que os resultados deste referendo devem ser vistos como uma oportunidade de reflexão. Numa altura em que chovem críticas ao método de funcionamento da UE e, em último caso, à perda de soberania por parte dos Estados-Membros, o referendo do Brexit deve servir para que os líderes europeus e dos Estados-Membros reflitam em soluções e formas de criar uma UE melhor para todos. Sem utopias e com equilíbrio de interesses. No meio disso tudo e na melhor das hipóteses, encontrando uma forma de todos ficarem satisfeitos com a permanência. Reino Unido incluído.

Isso exige um enorme exercício de flexibilidade, claro. Exige diálogo, exige negociações. E exige que os líderes tenham capacidade de conduzir essas mesmas negociações, olhando para os seus próprios cidadãos mas, também, para a UE como um todo — algo que não se tem verificado repetidas vezes. E, acima de tudo, exige moderação. Ter os pés bem assentes na terra.

Este fim de semana, o Bloco de Esquerda (BE) mostrou, na sua décima convenção, que não convive bem com isso. Catarina Martins ameaçou Bruxelas com um referendo semelhante cá em Portugal, caso as sanções ao país por incumprimento avancem — embora sem explicar se à permanência na UE, se ao Tratado Orçamental. Disse-o, mas talvez sem o querer realmente. Possivelmente na esperança de que o Brexit tenha feito com que a Comissão Europeia mude de ideias.

Infelizmente, as coisas não funcionam assim. Esta segunda-feira, o jornal francês Le Monde apontava como muito certo que a multa — que pode chegar aos 0,2% do PIB, acrescendo a suspensão de fundos comunitários — vá mesmo avançar, para azar do BE e de todos nós, portugueses. A ser verdade, é esperar para ver como irá o BE cumprir a promessa e fazer frente às barreiras jurídicas e políticas. O mesmo BE que apupou o representante do Syriza, à priori um partido-irmão, convidado pelo próprio Bloco para a convenção do último fim de semana.

Convenhamos que esta crise política, apesar de importante, não é o problema mais grave da UE. Não nos podemos esquecer de todos os outros flagelos onde o terrorismo e a crise dos refugiados se revelam os dois exemplos mais proeminentes. Junte-se ainda a corrupção e a crescente vaga de extremismo a espoletar um pouco por toda a Europa. O Brexit não nos pode fazer esquecer de que é de vidas humanas que estamos a falar. Extremismo, corrupção, guerra. Não é neste mundo que quero viver.

vaga de calor não se limita apenas à Europa. Veja-se o caso dos Estados Unidos, onde o clima político também tem estado bastante cálido. Donald Trump terá conseguido a nomeação republicana nas Presidenciais de novembro e a mais remota hipótese de que possa vencer está já a provocar arrepios em muita gente.

É só uma breve amostra do jogo que se desenrola enquanto lê este artigo — joga-se o futuro europeu, joga-se o futuro do mundo. E este verão, já quente, vai aquecer ainda mais.

Flávio Nunes
Diretor-Geral da Tomar TV

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