O poder da ignorância (Opinião)

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TomarTV

Graça Costa. “Antes do 25 de Abril o nível de iliteracia em Portugal era elevadíssimo. Essa taxa baixou, mas, infelizmente, não correspondeu a um aumento de cultura.”

Todos os anos a história (triste) se repete e todos os anos a comunicação social dá conta e partilha connosco a vergonha que é a falta de cultura histórica do povo português.

Refiro-me ao clássico inquérito de rua sobre o 25 de Abril; sobre quem foi deposto e quem fez depor, sobre o regime de antes e o do depois, sobre os protagonistas …no fundo sobre as nossa história recente e de como ela condicionou e potenciou uma série de coisas.

Dá que pensar.

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Dá que pensar porque os portugueses são dos povos europeus com mais uso de tecnologias de informação ( Internet ), com mais telefones topo de gama, com mais Pc’s por domicilio, com mais nnnn coisas fúteis e quantas vezes supérfluas,  e ao mesmo tempo demonstram uma tão básica cultura cívica, no que toca a competências sociais básicas, como por exemplo o conhecer a historia recente do seu país.

Todos os anos a história se repete e tenho que confessar que, apesar de já não ser apanhada desprevenida, todos os anos sinto a mesma náusea da vergonha ao ver cidadãos portugueses a titubearem e a dizerem asneiras de lesa pátria sobre os últimos, vá lá, 50 anos da nossa história (os últimos do antigo regime e toda a história do processo democrático).

É que, tenhamos coragem de o assumir, poderíamos estar a falar de episódios menores da história de Portugal, mas não, caramba. Estamos a falar do derrube de um regime ditatorial e da implantação do regime democrático em Portugal, com todas as mudanças civilizacionais que tal permitiu.

Sim, Democracia, esse regime cheio de virtudes e defeitos, sobre o qual abundam “opinion makers” e “treinadores de bandada” cheios de opiniões, teorias e certezas; esse regime que nos permite a todos dar largas à imaginação;  ter acesso a Facebook, Twitter, Instagram, Blogs, etc, etc, plataformas onde temos a liberdade de dizermos, falarmos e escrevermos sobre praticamente tudo e todos e onde até temos a liberdade de demonstrar  a nossa ignorância.

Pois, é que como diz o povo: a ignorância é atrevida e se dúvidas tivéssemos, bastava passar os olhos pelas redes sociais e pelos jornais online e rapidamente perceberiam ao que me estou a referir – a “substância “ da maioria dos comentários dos leitores é de estarrecer, e a tipologia das notícias mais comentadas… idem. É que o acesso ao mundo virtual e às novas tecnologias de comunicação, não significa sair do círculo infernal da ignorância. É apenas “modernizá-la”. Antes do 25 de Abril o nível de iliteracia em Portugal era elevadíssimo. Pouco mais de 40 anos depois, essa taxa baixou consideravelmente, mas, infelizmente o aumento da literacia não correspondeu a um aumento de cultura.

Dir-me-ão que este é um fenómeno “viral”, não é exclusivo dos portugueses e obviamente eu concordarei sem pestanejar – a ignorância é um fenómeno transversal à humanidade e tem vindo a agravar-se porque o acesso à informação, assim cru, sem filtros, não tem o caracter pedagógico que se pensava, antes pelo contrário. Por outro lado, muitos países continuam a fazer um investimento residual na educação e formação dos seus povos, centrando-se excessivamente em conteúdos e pouco em competências. Portugal é, infelizmente, um desses países, que ainda não percebeu que, um povo culto, competente, esclarecido e educado é meio caminho para uma sociedade interventiva, para uma cidadania activa, para um país de sucesso, com pessoas mais felizes e realizadas.

Portugal não percebeu, e tenho consistentes dúvidas que o queira fazer, senão vejamos.

Portugal tem sido parte integrante de vários estudos a nível europeu, sendo que em muitos deles, teve mesmo equipas de especialistas a fazer parte dos respetivos projectos. Referirei apenas alguns, porque eles são tantos e tão seguidos que até ficamos zonzos. Recentemente foram divulgados estudos sobre a felicidade, sobre a confiança nas instituições, sobre o sucesso, e em todos eles o nosso país esteve no pódio invertido, ou seja nos últimos lugares. Ok, até aqui tudo bem; fez-se o estudo, pagou-se  equipas de trabalho que recolheram e analisaram os dados, chegou-se a estas conclusões, que não sendo animadoras, foram, pelo menos esclarecedoras sobre o muito que temos para fazer , no sentido de melhorar o nosso lugar nesses rankings.

Assim sendo, pergunto eu… e consequências ?

Repararam o que estava mal ou, pelo menos, foi pensada alguma estratégia para começar a reverter os danos ?

Não, nada, népia… estamos rigorosamente na mesma, porque o objetivo destes estudos são, apenas isso mesmo: apenas estudar e criar teorias, quase manobras de diversão, que provocam conversa e pseudoanálises durante alguns dias e depois se esquecem.

O objectivo destes estudos não é resolver situações erradas, melhorar a vida dos cidadãos, criar apetência e desejo de melhorar, de aprender, criar gosto pela aquisição de competências, ser mais acutilante no questionamento do que se passa à nossa volta, ter uma conduta cívica mais acertada e mais assertiva.

Não se faz nada, porque um povo que não questiona é mais facilmente manipulável.

É preferível para os poderes instituídos, seja qual for a família politica que esteja ao leme da governação, ter gente a discutir futebol e a ver reality-shows do que a questionar o rumo da sua história.

Mas, voltemos ao inquérito sobre o 25 de Abril e a conquista da liberdade e centremo-nos agora no conceito de liberdade que o resultado daquele inquérito nos transmitiu. Quero refletir sobre ele, porque o resultado é perturbador e assustador. Para uma quantidade significativa dos “apanhados” na rua , à pergunta : O que significa a liberdade conquistada pelo 25 de Abril ? responderam – é podermos fazer o que quisermos…

Existirá alguma coisa mais assustadora do que respostas destas?

Não assusta apenas o carater redutor da resposta e a quase humilhação histórica a que se relega o 25 de Abril de 1974.

Não assusta apenas o paradigma social reinante, em que a ausência de regras e limites que o viver em democracia comporta, é o catalisador da falta de civismo com que nos cruzamos tão frequentemente.

O que assusta mesmo é percebermos que passaram 42 anos, mas nem os políticos nem as escolas, nem a comunicação socia( que ano após ano, passa uma imagem muito “lavada” do evento histórico mas não o aprofunda), nem, finalmente, muitas famílias, conseguiram transmitir e enraizar a essência do que, supostamente, foi conquistado : o direito a sermos livres, com toda a responsabilidade que isso implica, perante nós mesmos e perante os outros.

Temos um longo caminho a percorrer.

aldous_opiniao_graca

Artigo não escrito ao abrigo do acordo ortográfico.

Graça Costa
Socióloga

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