O fenómeno Trump (Opinião)

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Graça Costa. “Donald Trump surge na frente dos aspirantes à candidatura republicana porque soube interpretar e explorar bem os medos de muitos americanos atualmente.”

Winston Churchill disse um dia que “A democracia é a pior de todas as formas de governo, excetuando-se as demais.”

Esta frase, que nada tem de enigmático mas tem muito de substância, tem sido ao longo dos tempos e sobretudo no mundo ocidental um ícone do liberalismo político, económico e social e creio que qualquer pessoa medianamente interessada nestas coisas da Sociologia Política já refletiu sobre ela.

O problema é que, apesar de ser o “mal menor”, a democracia por vezes pode ser como dizia Oscar Wilde — “ o desencanto do povo, pelo povo, para o povo”, e mais do que isso pode ser uma ferramenta poderosa de propagação da imbecilidade.

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Perguntar-se-ão os leitores a propósito de que é que eu estou a fazer estas considerações.

Bem, a génese da reflexão poderia ser infinita e poderia ilustrar o que acabei de dizer com inúmeras situações que ocorrem diariamente no mundo democrático e que espelham exatamente isso, mas na verdade estas duas personalidades, Churchill e Wilde vieram-me à cabeça quando me predispus a ver parte um comício de Donald Trump que teve como convidada de honra Sarah Palin. Tão surreal e perigoso que merece comentário e reflexão.

Se a mera existência de Donald Trump como candidato à sucessão de Obama já é, por si só, surreal, colocar no mesmo palanque estas duas personagens de folhetim e ver uma urbe em êxtase a aclamá-los é verdadeiramente perturbador e preocupante. Tanto, que me faz lembrar uma conhecida frase do enorme Jorge Luís Borges – “A democracia é um erro estatístico, porque na democracia decide a maioria e a maioria é formada de imbecis.”

Não querendo ofender ninguém, eu inclusive que também voto, com uma interpretação literal da frase anterior, a verdade é que a multiculturalidade americana, que não pratica a inclusão mas sim apenas a integração, tem tido como consequência a emergência de uma sociedade altamente fragmentada, fértil em antagonismos e assimetrias sociais assustadoras.

Juntando a um cenário destes o facto dos americanos serem por natureza um povo, como direi, “estranho” em termos da sua organização social sistémica, arreigado a preconceitos, muitíssimo moralistas mas com uma desmesurada incidência em disfunções e adicções, ficamos com a receita perfeita para serem vítimas fáceis de manipulação.

Muitas pessoas se questionam sobre o facto de Donald Trump estar à frente nas primárias do partido republicano e continuar a capitalizar apoios de diferentes quadrantes mas sobretudo da população anónima. Questionam-se e questionam-se muito bem porque o homem é um completo mentecapto. Um mentecapto muito rico é verdade, mas um mentecapto e mais do que isso, um mentecapto perigoso que está a jogar eficazmente todas as suas fichas ( como num jogo de póquer ) num cenário que, infelizmente, capta muita gente – o medo.

Donald Trump surge na frente dos aspirantes à candidatura republicana, não por ser milionário, não por ser excêntrico, não por ser o típico americano, mas porque soube interpretar e explorar bem os medos de muitos americanos atualmente: o medo dos refugiados, dos terroristas islâmicos, a ascensão comercial dos países emergentes e os perigos do desemprego daí decorrentes, entre outros.

A “ditadura” do medo assume assim de forma subliminar na, supostamente, maior democracia do mundo, uma dimensão nunca vista, com uma eficácia que só tem que preocupar quem, no meio da insanidade em que o mundo se está a transformar, ainda consegue manter alguma lucidez.

O povo americano, como sabemos não prima por ser um povo culto e muito menos por ser um povo que “pense”. Na realidade um povo que se educa e estrutura a sua personalidade através de reality shows sobre todas as matérias e mais uma ( relembro apenas a série/ documentário Cops ou a Casa das Desavergonhadas ), através de “stand up comedies”, de concursos e séries de culto; um povo que todos os dias se confronta com mortes por posse de armas e mesmo assim considera normal que se ande de arma à cintura para defesa pessoal; um país cheio de preconceitos absurdos e moralismos duvidosos porque apenas de retórica e não de praxis; um país com uma das maiores taxas de obesidade mórbida do mundo e que contínua a considerar a junk food um dos seus elementos identitários é seriamente um caso de estudo, mas no qual não me parece que seja assim tão difícil perceber a aceitação e ascensão meteórica de pessoas com o perfil de personalidade de Donald Trump.

Caso seja eleito, Trump promete “fazer os Estados Unidos grande outra vez” – como se ele tivesse deixado de ser o país mais poderoso do mundo – e propõe soluções “simples” para isso: deportar 11 milhões de imigrantes sem documentação, proibir a entrada de muçulmanos no país e forçar os governos das economias emergentes a recuar na sua tentativa de entrar no mercado americano ( como se eles não estivessem já lá com as suas Adidas, Nike, e “nnnn” marcas conceituadas de roupa e acessórios, produzidas por crianças numa total escravidão e consumidas avidamente pelas elites e copiadas por milhões ).

E o povo aplaude, ébrio de esperança em algo que nem sabe bem o que é mas que lhes restaura momentaneamente o ego enquanto nativos da proclamada mais poderosa nação do mundo.

Vivemos tempos perigosos é verdade, mas é bom que percebamos que os fundamentalismos não vêm todos dos lados do Islão. Os ditos países do primeiro mundo, não estão menos contaminados e Donald Trump é um vírus tão perigoso quanto o Zika  – primeiro infiltra-se no imaginário dos americanos, depois contamina e só mais tarde irão aparecer as consequências.

Tem tudo para correr mal – queriam os “deuses” que a sua candidatura não vingue. O mundo agradece.

À hora a que envio esta notícia, a 2 de Fevereiro, acabam de sair os primeiros resultados  – Trump perdeu no Iowa para Ted Cruz – uma réstia de esperança se esboça.

Aguardemos… atentos.

Graça Costa
Socióloga

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1 COMENTÁRIO

  1. Alguns leitores poderão ter dado pelo lapso, outros acredito que não , mas enganei-me na autor de uma frase que citei.
    Assim onde se lê José Luís Borges , deve ler-se Jorge Luís Borges.
    Peço desculpa pelo lapso.

    Grata pela atenção

    Graça Costa

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