Confiança – Sabem o que é isso? (Opinião)

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Graça Costa. “Para além de estarmos no pódio, também no recente estudo sobre a felicidade, como sendo dos povos mais tristes da Europa, somos também desconfiados em relação aos nosso pares.”

Tenho por hábito dar uma vista de olhos pelos títulos dos jornais que recebo, diariamente, no meu email através do Notícias ao Minuto e guardo as que me fazem sentido, quer pela positiva quer pela negativa. Hoje, talvez por estarmos, de novo, em campanha eleitoral, revisitei uma notícia sobre um estudo cujos resultados o Correio da Manhã publicou com o sugestivo título – “Os portugueses não confiam uns nos outros” e que revelava que nesta matéria, estamos no pódio com a Polónia e a Eslovénia. O estudo envolveu 23 países e em Portugal foi, como de costume, coordenado pelo ICS e pelo Prof. Jorge Vala.

Longe de ficar surpreendida, este estudo do ICS (Instituto de Ciências Sociais) só vêm corroborar o que há muito venho defendendo, diga-se em abono da verdade numa cruzada bastante solitária.

Assim, confirma-se que para além de estarmos no pódio também no recente estudo sobre a felicidade como sendo dos povos mais tristes da Europa (é o nosso “fado”), somos também desconfiados em relação aos nosso pares.

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Não é difícil entender e até descodificar estes números – efetivamente os portugueses são muito solidários na “caridadezinha” herdada da clássica educação judaico-cristã, mas na hora da verdade, quando as coisas realmente começam a doer e é preciso dar a cara por algo ou por alguém, somos exímios na xico-espertice do assobiar para o lado e fazer de conta que não é nada connosco.

Na verdade, comprar um quilo de arroz, massa ou açúcar e engrossar o banco alimentar (com todo o respeito pela génese do mesmo, não pela forma como é gerido), conforta a alma lusa e não compromete. A seguir, podem meter-se no carro, de alma lavada e pecados expiados porque fizeram uma boa ação, mas se o gesto pode ajudar a colocar comida na mesa de muitos portugueses que hoje passam fome, nada muda na essência daquilo que este estudo denuncia.

Mais, vem reforçar que gestos destes revelam que alguns portugueses conseguem mesmo ter um estranho dom de ubiquidade moral, que lhe permite ser em simultâneo solidários e estripadores, se isso lhes trouxer alguma mais valia.

Jorge Vala, o investigador que dá a voz por este estudo afirma que “Nem fomos educados a ajudar nem a perceber no outro uma potencial fonte de ajuda”.

Verdade, grande verdade, mas o que interessa saber é o porquê.

É uma questão de educação, infere o estudo; mas na minha modesta opinião é uma questão de várias vertentes da educação que não se cruzam como deviam – a educação familiar, a escolar e a da cidadania.

Mas o estudo revela ainda a falta de confiança nas instituições, afirmando que que “a confiança nas instituições políticas no seu conjunto seja também baixa” e é aqui que a “porca torce o rabo” porque entronca com a questão do exemplo.

O nosso sistema político é patético e totalmente descredibilizado; o sistema de saúde, de educação e de justiça, dificilmente conseguem ser adjetivados de forma a fazer justiça ao absurdo da forma como funcionam e como têm defraudado, quer as expetativas dos portugueses, quer a dita confiança que, obviamente não se constrói no vazio, de geração espontânea.

Se algum mérito este estudo tem é, o de mais uma vez, chamar a atenção para o país que estamos a (des)construir e para os perigos inerentes ao mesmo.

Não tenho grande fé que faça alguma diferença nas pobres mentes de quem nos tem governados ao longos destes 40 e picos anos de “Democracia”, porque o país que eles vêm não é igual ao meu, mas não posso, mais uma, vez ficar indiferente.

Enquanto portuguesa, não gosto e não quero ser vista assim, mas para que o cenário mude e o argumento passe de “drama” para uma outra categoria mais simpática e empática, muito tem que mudar neste nosso Portugal.

Contudo para os portugueses mudarem primeiro tem que mudar o país, tornar-se credível, honesto e fiável, a começar pelos políticos e pelas instituições.

Obviamente que o trabalho de casa, na família, não pode nem deve ser descurado, mas se for desgarrado, uma bolha no imenso mar de descrédito, quebra de valores e de ideais, de nada servirá a não ser acrescentar fermento ao bolo “podre” que nos é diariamente servido em bandejas de prata falsa.

Se assim não for, até podemos fingir que somos todos muito amigos e como nos jogos de futebol da seleção nacional, gritarmos a Portuguesa coma voz embargada e o coração a mil, mas será apenas por escassos minutos e tudo voltará a ser como dantes.

Até quando esta triste sina, este triste “fado” que como neblina nos envolve e nos tolhe o sentir?

Deixo-vos a questão e o desafio de tentarem encontrar uma resposta que nos alegre a alma.

Até breve.

Graça Costa
Socióloga

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